Tudo começou bem antes de eu ter nascido. Já no ventre materno dava que falar.
Durante a gravidez, a minha mãe recebeu a notícia do médico que eu ia ser uma manina e a minha mãe, durante toda a sua gestação, preparou a minha chegada com cores, roupas, acessórios e brinquedos de menina. Após nove meses, no dia 13 de Julho de 1988, depois de conhecer todos os cantos no ventre materno da minha mãe, nasci.
Mas no momento das minhas boas-vindas ao mundo algo surpreendentemente e estupefacto aconteceu. Todos pensavam e esperavam por uma menina, mas no final não foi bem isso que aconteceu e, na realidade, nasceu um rapaz.
Os meus pais ao receberem a surpreendentemente e definitiva certeza pela boca do médico que tinham um rapaz, olharam um para o outro o outro e os seus olhares continham a mesma pergunta: é um rapaz? E agora o que fazemos com as roupas; o berço e os brinquedos?
Os meus pais não responderam, apenas limitaram-se a chorar de felicidade e sempre com o pensamento conectado em mim e no meu bem-estar.
Decorrido alguns dias, eu fui para casa e limitei-me a conviver com todas aquelas coisas femininas. Para mim, o meu verdadeiro reino era estar rodeada de todas aquelas cores, brinquedos e um montão de coisas que me faziam sentir feliz, como se eu fosse uma princesa num reino encantado. Vivi assim até completar três anos.
A partir dos 3 até aos 6 anos, os factos que me recordo não são muitos. Apenas recordo-me de recusar forçosamente os brinquedos de menino e brincar desejosamente com brinquedos femininos. Era com esses brinquedos que eu me identificava e me sentia bem. Durante a minha infância eu gostava de brincar com bonecas; barbeis; nenucos, carrinhos de passeio para bonecas; brinquedos relacionados com casinhas e com aparência física (maquilhagem e cabeleireiro). Para além destes brinquedos, gostava inclusive de criar as roupas para os bonecos. Era nestes momentos de brincadeira que eu conseguia ter tatuado o sorriso no meu rosto.
Também consigo recordar-me do núcleo de amizades que eu tive, especialmente com duas vizinhas, (a Juliana e a Diana). Todos os fins-de-semana, logo que me levantava a primeira coisa que surgia na minha cabeça era chamá-las para poder juntar-me às suas brincadeiras e conversas de criança. Eu adorava brincar com elas, porque as nossas brincadeiras eram mágicas e junto delas podia-me sentir mais uma. Eu sei e sinto que nunca mais irei esquecer esses momentos que passei junto delas.
Até aos meus 6 anos, também consigo recordar-me perfeitamente das alturas do carnaval. Adorava os carnavais do infantário. Esta era a época do ano que mais ansiava, pois somente nesta época eu podia ser o que tanto desejava ser durante um ano inteiro, uma menina. Nestas épocas libertava-me e escolhia sempre fantasiar-me a rigor como uma menina, com tudo a que tinha direito (vestido, batom, brincos, sandálias e peruca). Gostava de sair vestida assim e os vizinhos ficavam admirados e comentavam aos meus pais que eu parecia de facto uma menina. Sentia-me feliz, pois eu conseguia olhar para o meu aspecto e identificava-me com a Juliana ou a Diana. Nada melhor para encher-me o ego.
Um outro momento que me recordo foi quando um dia a Juliana veio-me chamar a minha casa e trazia uma meia calça de criança amarela com um macacão e eu gostei tanto que acabei por pedir e fazer birra junto da minha mãe que por fim acabou-me por comprar e eu acabei por sistematicamente querer levar a meia calça amarela para o infantário, porque sabia que a Juliana e os outros meninos também tinham umas mais calças amarelas.
A minha vida no infantário nunca foi sociável principalmente no núcleo dos rapazes e nunca expressei tal vontade. Assim, desde logo, os educadores comunicaram aos meus pais, esta falta de interesse na participação junto dos rapazes e acabaram por deixarem-me à vontade e integraram-me junto das raparigas.
Eu brincava com elas sem parar. Muitas vezes íamos para o jardim infantil e aí eu era a primeira a influenciar as meninas para fazermos as típicas brincadeiras, tais como: comboinho, brincadeiras bate palmas, à corda e as típicas brincadeiras de casinhas, que eu acabava sempre por ser o “filho” ou o “pai”, e confrontada com tal desagrado, acabava por rejeitar.
Ao nível das roupas também sucedeu alguns factos. À medida que crescia minha mãe comprava-me roupa tipicamente masculina e eu detestava usar aquilo, como por exemplo: sapatos pretos tipicamente de rapaz, camisolas e t-shirts com cores nada convidativas e com linhas muito masculinas, fatos para cerimónias formais com direito a lacinhos e gravatas. Era este tipo de roupa que deitava-me abaixo, entristecia-me o rosto e fazia-me sentir diferente “delas”. Recordo-me de um dia a minha mãe insistir para que eu usasse uns sapatos pretos e eu teimosamente forcei o meu desagrado para não os calças, porque o que queria mesmo nesse dia era usar umas sandálias beijes ou brancas (já não me lembro perfeitamente que cor eram), porque sabia que no infantário algumas meninas também calçavam sandálias e já tinha o mínimo conceito, de que, os sapatos pretos eram para os meninos. Este monte de contradições. Ora porque quero isto e não aquilo (como tipicamente deveria de ser) muitas vezes deixava-me completamente triste porque era uma criança que não sabia muito bem o porquê de agir assim. Apenas queria ser mais uma no núcleo delas, queria ser tratada como elas, participar, brincar e sorrir junto das meninas. Nesta altura não olhava muito para o meu aspecto físico (pelo menos não me recordo desse pormenor nessa fase da minha vida). Apenas me lembro de ter 6 anos e já frequentar o primeiro ciclo e ter pedido à minha mãe para me furar as orelhas. Gostava de usar brincos, porque a maioria das meninas também usavam. Apesar destas contradições constantes do meu dia-a-dia, havia sempre algo que eu não conseguia abstrair na minha mente, que era o porquê, de elas poderem usarem um determinado brinquedo, cor, vestido, etc., e, eu não o poder usar ou ter.
Uma das grandes lembranças que também preservo é de dois conjuntos de roupa que eu usava no meu dia-a-dia. Eu, no meu quotidiano, optava por os usar, porque eles continham a minha cor favorita (cor de rosa), eu fui bastante gozada por os usar, por parte dos meninos do infantário e uma vez pelo meu pai. Foram dois conjuntos bastante significativos para mim, porque eu adorava-os e a minha mãe sabia desse meu gosto. Foram usados vezes sem conta, ate se romperem. rsrs



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